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Onde estão os intelectuais? Ações e ideias dos pensadores dentro dos protestos globais. Parte I: Slavoj Zizek.

  A atual configuração dos  movimentos de protestos globais, como o Indignados na Espanha e o Ocuppy Wall Street nos Estados Unidos da América,  é composta de multidões aparentemente não hierarquizadas, horizontais. Apesar da maioria dos insurgentes serem jovens das classes médias urbanas, os movimentos são abertos para a participação de diferentes atores sociais, reunindo desde cidadãos que perderam o emprego na crise financeira até grupos anarquistas e representantes de sindicato.

        Nestas diversas ondas, sem liderança ou disciplina explícitas, é interessante flagrar alguns intelectuais misturados às multidões, aos movimentos e grupos insurrectos. Na atmosfera aberta e imprevisível das ruas, eles aparecem mais como incitadores, sem muito da aura de celebridade midiática ou liderança política conferida por seus públicos nos canais habituais pelos quais costumam se comunicar.

    A teoria aparece, aqui, conforme Foucault e Deleuze gostavam de caracterizá-la( em “Os intelectuais e o Poder”), como uma caixa de ferramentas a ser utilizada por todos, sem privilégios ou distinções.  A aposta é que destituir o pensamento da figura do autor, seja este um indivíduo( o Gênio, o Criador, etc.) ou um Coletivo( o Estado, o Povo, a Nação), pode torná-lo mais forte, pois mais diretamente democrático.

   Aqui, por exemplo, Slavoj Zizek, filósofo esloveno que mistura Lacan e Marx e já escreveu mais de 30 livros, em momento de participação direta, no último dia 10 de outubro em Ocuppy Wall Street:


  Fora das salas de conferência, aonde costuma discorrer para plateias de maioria universitária, sua fala somente torna-se audível, se comunica, quando assumida pelos ativistas que o acompanham em eco.

    Tentaremos sintetizar alguns aspectos que nos parecem importantes nas ideias que Zizek vem produzindo sobre a crise. O filósofo se recusa a ver nos protestos em si o germe de uma nova militância “pós-moderna”. O caráter descentrado, a flexibilidade, a espontaneidade e o relativo desinteresse pela política partidária manifestados pelos insurgentes seriam, para Zizek, ainda sub-políticos.   “Nenhuma oposição ao sistema consegue articular-se como alternativa realista, sequer como projeto utópico, e só consegue assumir a forma de explosão sem meta ou significado.” (esta e a próxima citação em   http://neccint.wordpress.com/2011/08/22/slavoj-zizek-assaltantes-de-lojinhas-do-mundo-uni-vos/ ).

     Sua aposta parece ser a de que é necessário criar células organizadas aptas a potencializar a atuação política dos movimentos. Ou seja: construir grupos  disciplinados, com demandas, propostas e atuação articulada,  direcionadas tanto à opinião pública quanto aos governos e partidos. Só assim seríamos capazes de  superar a fragmentação destes movimentos disperos, que, para Zizek, apesar de constituirem importantes indícios do desejo de mudança, são incapazes de produzir as transformações sociais necessárias.

          Deveríamos, então, perder o medo da captura pelo poder institucionalizado, o temor de tornar-se “como eles” ao  nos estruturarmos como grupos capazes de ocupar efetivamente a esfera política(Estados e partidos), buscando revolucioná-la. Somente superando tal “medo da morte do espontâneo”, da imediatez das lutas e protestos dispersos, poderíamos realizar a passagem fundamental das revoltas fragmentadas para uma revolução efetivamente transformadora.

       Seria necessário subir na arena de combate que, ingenuamente, identificamos como “a do inimigo”?   E como se daria esta entrada? À palavra,  Slavoj:

  “Quando os manifestantes começaram a discutir o passo seguinte, como avançar além dos simples protestos, a maioria concluiu que não se precisava de novo partido e que não era o caso de tentar tomar o poder do estado; que o movimento faria pressão sobre os partidos políticos. Evidentemente, é muito pouco para forçar uma reorganização de toda a vida social. Para chegar lá, é indispensável um corpo forte, competente para tomar decisões rápidas e implementá-las com todo o rigor necessário.”

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One comment on “Onde estão os intelectuais? Ações e ideias dos pensadores dentro dos protestos globais. Parte I: Slavoj Zizek.

  1. Net4allJosé Neto
    Novembro 23, 2011

    é necessário encontrar forma de Organizar os movimentos espontâneos.
    é inevitável entrar no sistema para o minar por dentro.

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This entry was posted on Outubro 11, 2011 by in Geral.

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