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protestos, levantes e movimentos de dissenso

As revoltas globais e o panorama brasileiro

É verdade que o ciclo global de protestos parecer ainda não haver contaminado de maneira impactante o Brasil, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Chile, atravessado por mobilizações que adquiriram ampla repercussão e adesão social. Mas já podemos perceber, no ano de 2011, alguns fenômenos significativos que indicam que o país não está alheio as transformações globais, e que estas interagem de maneira complexa e imprevisível com as mudanças que vem ocorrendo internamente.

Vale ressaltar um ponto interessante: o surgimento, ou o crescimento, de uma nova classe social, a chamada classe C, produzida no bojo das transformações acarretadas pelos programas de assistência social, pela maior distribuição de renda e pelo crescimento econômico do país. Se ela é interpretada pelo poder (governo, mídias majoritárias e mercado) como mera classe consumidora, poder de compra, por um lado, e capital humano, por outro, na prática ela apresenta um conjunto complexo de desejos e demandas novos que escapam a uma análise que se contentasse em apreendê-la sob um prisma meramente “sociológico”.

Não constitui um simples efeito secundário das revoltas globais o fato de que, num país com inédito crescimento econômico e alguns (pequenos) indícios de melhora numa distribuição de renda assustadoramente desigual, os protestos, as greves e a conscientização crítica da população estejam crescendo por toda a parte. O poder mínimo que vem sendo concedido /conquistado por atores sociais acostumados a ancestral dominação política e econômica não acarreta necessariamente apenas na satisfação passiva do consumo, no gozo satisfeito da pequena inserção social adquirida. Embora, de fato, tal efeito “narcotizante” seja significativo, o aumento da participação econômica também pode levar ao crescimento e radicalização das demandas por transformação social. As consequências da entrada em cena destas novas subjetividades que estão se formando são imprevisíveis; certamente, elas não poderão ser compreendidas apenas sob a lógica dentro da qual o poder as enxerga, ou seja, como mão de obra e mercado consumidor, e nada mais (embora também o sejam).

Num país com parca tradição de mobilização, o crescimento da conscientização social é visível, e entra em manifesta contradição com a imagem de um Brasil pacificado sob o consenso do desenvolvimento econômico. A marcha contra corrupção, sustentada majoritariamente pelas classes médias dos grandes centros urbanos e instrumentalizada pelos partidos políticos; a marcha pela maconha em São Paulo, que se transformou em marcha pela liberdade no país inteiro, misturando atores de diversas camadas sociais (desde os movimentos como a marcha das vadias até ativistas de rede sociais); as diversas greves, como a de funcionários da Volks em Curitiba, a dos bombeiros no Rio de Janeiro, a dos correios e dos bancários; os protestos contra as remoções urbanas perpetradas pelo governo Cabral e pelo prefeito Eduardo Paes no Rio de Janeiro que, acobertados pelo ufanismo ideológico gerado pelos mega-eventos (copa e olimpíadas) vem estreitando o histórico casamento entre o Estado e o grande capital, numa limpeza étnica e social das áreas pobres cujo caráter assustadoramente fascista salta aos olhos.  Estes protestos, restritos a alguns grupos ativistas e movimentos sociais, ainda são pouco, principalmente se levarmos em conta a atrocidade das ações levadas a cabo pelo governo do Estado e pela prefeitura da cidade. Mas, quando os relacionamos ao quadro mais amplo de mobilizações nacionais que apontamos, demonstram uma inegável mudança no termômetro social da subjetividade brasileira.  Finalmente, devemos registrar mais este exemplo: no último dia 15 de outubro, marcado pelos movimentos globais como o dia oficial da mobilização internacional, alguns ativistas enfrentaram a forte chuva que caia sobre o Rio de Janeiro para protestar na Cinelândia, e também em São Paulo.

Obviamente, este quadro é demasiado complexo para que qualquer conclusão possa ser tirada de antemão, ainda mais no espaço de um post.  Participando destes protestos e mobilizações existem tanto as tradicionais centrais sindicais, ligadas aos partidos políticos e às demandas dos trabalhadores formais, quanto os novos ativistas das redes sociais, grupos feministas, ONGS, grupos anti-racisimo, movimentos sociais e, finalmente, cidadãos sem qualquer participação num grupo específico, mas inspirados tanto pela onda de protestos que atravessa o planeta, quanto pelos novos desafios e possibilidades da conjuntura interna.

O interessante é observar como as complexidades internas do país dialogam com o panorama internacional.  A mudança na inserção do Brasil dentro do quadro internacional é acompanhada por transformações que não se reduzem apenas ao novo ufanismo e histeria semi-nacionalista gerada pelo inédito crescimento econômico.  Junto ao eixo majoritário do desenvolvimento e da tentativa de inserção do país como ator hegemônico no quadro do capitalismo internacional, existe uma linha quebrada, uma lógica desviante que não se deixa reduzir ao simples determinismo econômico da política “oficial”: é a micro-política dos novos desejos e demandas, expressa também nos protestos que descrevemos e que, em clara sintonia com os movimentos globais, contam uma história diferente, de um Brasil que não pode ser enxergado apenas do ponto de vista de Brasília, do mercado e da grande mídia corporativa. História cujo desenrolar ainda não podemos, é claro, conhecer; mas da qual será, sem dúvida, fascinante poder participar.

Aqui alguns links interessantes para acompanhar o panorama brasileiro.

Um ótimo texto do Blog Quadrado dos loucos, de Bruno Cava, sobre o 15 de outubro no, Rio de Janeiro:

http://www.quadradodosloucos.com.br/1978/um-caminho-para-o-15-o-no-rio/

O vídeo de convocação para a marcha da liberdade, no último dia 18 de junho:

http://www.marchadaliberdade.org/2011/06/marcha-da-liberdade-documentos-urbanos-2011/

Outro texto de Bruno Cava sobre a nova classe C, e sua interpretação para além do “consumitariato”:

http://www.quadradodosloucos.com.br/tag/consumitariado/

Texto contra a construção da usina de Belo monte, expressão do desenvolvimentismo do governo atual.  Na revista Global Brasil, excelente canal para se acompanhar as ações no país:

http://www.revistaglobalbrasil.com.br/?p=658

Texto sobre as marchas da liberdade, no site outras palavras, outra ótima fonte para se acompanhar as mobilizações no mundo, mas também no Brasil:

http://www.outraspalavras.net/2011/06/23/marchas-revolta-e-geracao/

Por fim, reportagens da ESPN denunciando as remoções no Rio de Janeiro para os mega-eventos.

http://www.youtube.com/watch?v=d0CVZ6s1zNA

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10 comments on “As revoltas globais e o panorama brasileiro

  1. jose carlos betencourt
    Outubro 16, 2011

    Pedro , uma boa visão do que esta acontecendo no Brasil . Acho que é um bom tema para ser explorado. Da mesma forma a questão do próximo passo que você abordou em um post anterior que resumo na percepção da falta de lideranças concretas e fortes nestes movimentos que possam conduzi-los para resultados práticos , qual seja obter mudanças politicas , sociais e econômicas. Para que isso aconteça a adesão tem que aumentar bastante para que possa influenciar a mídia , que ainda esta muito tímida , e pressionar o poder reinante.

    • pedrolaureano
      Outubro 16, 2011

      Pois é! A questão é se é precispo realmente de novas lideranças…Eu acho que não. Para o Zizek, por exemplo, precisa (disciplina, centralização, representação, etc.). A situação tá aberta, mas sem dúvida concordo com você que é necessário organização, articulação, contágio, divulgação, etc. A questão é se podermos potencializar novas formas de cooperação política, ao invés de recorrermos apenas ao velho vocabulário político, centrado no modelo partidário-estatal. Aqui no Brasil é tudo muito complexo. De qualquer maneira muita coisa importante ainda vai acontecer, a temporalidade tá ascelerada e imprevisível. E o Brasil não é uma ilha autista separada dos fluxos financeiros internacional, e, mais importante, das dinâmicas revolucionárias globais…

      • Bruno "Ruivo"
        Novembro 7, 2011

        Será que um dos desafios para uma maior sintonia entre os diversos movimentos contra-hegemônicos embrionários no Brasil não seja justamente o tamanho continental do País e a histórica questão de uma baixa integração espacial? Há uma mobilização interessantíssima em defesa do Xingu acontecendo na Amazônia; no estado do Rio estudantes da UFF ocuparam a reitoria; comunidades quilombolas se organizam político-partidariamente em Goiás; e por todo o País pipocam manifestações súbitas e ligeiras contra a elite política, mas existe alguma forma de coordenar duas ou mais iniciativas desse tipo em cantos opostos do País?

  2. Rafael Betencourt
    Outubro 16, 2011

    Acho que o fato do Brasil não se alinhar diretamente com a realidade dos protestos internacionais não simboliza um estado de dormência maior, é importante levar em conta que Brasil continua dialogando, apoiando e atuando diretamente com seus vizinhos da America Latina e neste sentido faz parte de um quadro já anterior da tentativa de elaboração de uma nova esquerda antiglobalização, com projetos definidos por uma oposição clara ao neoliberalismo e suas instituições internacionais. Argentina, Bolívia, Venezuela e Equador são representativos desse cenário e a eleição de Lula( agora com a continuação de Dilma) certamente já posiciona o Brasil de alguma forma no polo contrario ao consenso liberal. Apesar das politicas econômicas do governo Lula serem um retrato mais suave de uma oposição , principalmente se comparado a de seus vizinhos latinos, o seu discurso e o simbolismo de sua atuação internacional sempre caminharam para a construção de um caminho politico e econômico alternativo. Basta lembrar da defendida excepcionalidade brasileira durante a crise econômica e o atual discurso da Dilma contra as praticas do FMI e as medidas de austeridade impostas aos países assolados pela crise.Na verdade lendo as palavras dos indignados espanhóis e gregos vê-se uma clara inspiração nos exemplos da America Latina. Acho que as causas de uma baixa interação brasileira com o cenário dos indignados vai um pouco além de um simples desenvolvimento econômico em curso, embora ainda ache que a posição brasileira está suave demais.

  3. pedrolaureano
    Outubro 16, 2011

    Rafa, concordo contigo. Mas eu acho que isso tudo não pode ser visto apenas do ponto de vista macro-político, ou seja, da atuação do governo dentro do panorama internacional e nacional. Sem dúvida existe uma articulação pós, ou anti-neoliberal, que ressoa junto a outros governos de esquerda na America Latina e no mundo, e que é importantíssimo observar. E essa atuação é ambigua, hora apontando para transformações significativas, como o questionamento do modelo tradicional de direito autoral, as políticas sociais de repasse direto, a quebra do consenso em relação aos cortes orçamentários na Europa e nos Eua, etc. Isso é louvável, sem dúvida. O problema é qual o modelo alternativo, do ponto de vista macro-político, que o governo Dilma está propondo. Se for uma nova versão de capitalismo desenvolvimentista com forte intervenção estatal, massificação do trabalho formal, meta de crescimento econômico para (só assim) “redistribuir”, etc., acho que a transformação fica contida, aprisionada. É a ambiguidade do pêndulo mercado-estado, neo-liberalismo -desenvolvimentismo, uma contradição gerada e gerida pelo “poder”. Me parece que a alternativa vem de fora desse panorama macro-político, nos novos desejos (expressos também nos protestos globais e nas novas articulações políticas de caráter radicalmente descentralizado e horizontal) por radicalização democrática para além da dicotomia Mercado x Estado. Esse é o grande desafio, me parece. Por isso é essencial observar e pressionar a esfera governamental, louvando o discurso anti corte-orçamentário e anti-neoliberal da Dilma, mas observando criticamente para que o modelo alternativo proposto não seja um capitalismo de Estado, em mais uma oscilação do eterno pendulo Estado x mercado. Ou seja, tudo que está em jogo aqui é: já que o neo-liberalismo morreu, que a China não se torne o novo paradigma de um capitalismo Estatal de caráter fortemente protecionista, centralizador, repressor e desigual! Me parece que aí que está a bifurcação que muita gente tem apontado, (o Wallerstein, por exemplo). Capitalismo de Estado com forte regulação estatal, depredação ecológica, exploração do trabalho no mercado formal financiado pelo Estado, e algumas conceções de Estado do bem estar, OU uma nova esquerda e uma nova governamentabilidade, que possa produzir um desvio nesta dicotomia imposta, Estado x Mercado, Nacionalismo x globalização, etc. Neste sentido existem duas linhas de análise, e ambas são importantes: tanto a macro-política, ou seja, observar a atuação dos governos, e , no caso do Brasil, a ambiguidade da posição do governo Dilma, e, também, a micro-política, observar os protestos, as novas formas de luta coletiva que expressam a radicalidade dos novos desejos por democracia absoluta, para além dos Estados e do Mercados. Acho que é nessa última esfera que as transformações mais significativas vão acontecer, mesmo que elas venham a ser( é imprevisível) abafadas pela política tradicioanal com seus dilemas pré-programados. Neste sentido, me parece que o caráter anti-neoliberal do governo é bom “em si”, mas não “para si”: é preciso, mais que a face crítica ou “negativa”, saber afirmar um novo paradigma constituinte. Daí a importância de acompanhar as revoltas e protestos no país, sem mistificá-los, mas apostando na (e atuando pela) possibildade de que elas possam também traduzir este novo fazer político global que parece ser a única via realmente revolucionária.

    • Rafael Betencourt
      Outubro 16, 2011

      Mas ai que tá, o governo da Dilma ainda não propõe algo de concreto como modelo alternativo e nem sei se tem essa intenção, mas o meu ponto foi em como se insere o Brasil na America Latina, porque paralem dos modelos do possível capitalismo estatal chinês, já existe aqui na nossa região propostas que caminham em outro sentido… Tanto o governo Kirchner quando tirou a Argentina do fundo do poço econômico, trabalhando justamente contra as politicas impostas pelas instituições internacionais, quanto a Revolução bolivariana de Hugo Chávez e a mudança politica no Equador com o Rafael Correa. Em todos esses casos existiam e ainda existem projetos concretos que rivalizam com poderes globalizantes internacionais, principalmente na politica didata pelos EUA para a America Latina. É nesse ponto que não se trata apenas de macro politica, e sim de projetos específicos implementados por esses governos que estão representando algo de novo no contexto interno e internacional… O posicionamento do Brasil neste caminho acho que teria que passar por reformas politicas radicais, onde o modelo de democracia representativa teria que ser repensado, é um debate que esses países enfrentaram cada um de uma forma, mas que estabeleceram uma nova estruturação de suas sociedades. Todos esses são caminhos ainda em construção, portanto também necessita de cuidado ao sublinhar qualquer possível sucesso, até porque o neoliberalismo ainda não morreu de vez rs
      Na Europa a Islândia revolucionou ao implementar tanto uma nova politica econômica que fortalecia o Estado e ignorava as medidas de austeridades internacionais, mas que ao mesmo tempo restruturava seu sistema de democracia representativa…è um exemplo pouco noticiado, que alguns falam que só funcionam devido ao pequeno tamanho de seu país, no entanto ele deveria ser analisado com mais calma e interesse.

  4. Davis Alvim
    Outubro 17, 2011

    Parabéns pelo texto e obrigado pela indicação dos links.

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This entry was posted on Outubro 16, 2011 by in Geral.

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